
Ando perdido em uma selva de palavras.
Existem termos destinados a dar a impressão de que algo não é exatamente o que é, ou para botar verniz sobre uma atividade banal.
Já estão, sim, incorporados no vocabulário.
Servem para dar uma impressão enganosa.
E também para ajudar as pessoas a parecerem inteligentes e chiques
porque parecem difíceis...
Resolvi desvendar algumas dessas armadilhas verbais:
SEMINOVO - Já não se fala em carro usado, mas em seminovo.
Vendedores adoram!
O termo sugere que o carro não é tão velho assim, mesmo que se trate de uma Brasília sem motor, ou que o câmbio saia na mão do comprador logo depois da primeira curva.
É pura técnica de vendas.
Vou guardá-lo para elogiar uma amiga que fez plástica.
Talvez ela adore ouvir que está "seminova". Mas talvez...
SALE - É a boa e velha liquidação.
As lojas dos shoppings devem achar "liquidação" muito chula.
Anunciam em inglês. Sale quer dizer que o
estoque encalhou. A grife está liquidando, sim!
Não se envergonhe de pedir .mais descontos.
Pode ser que não seja chique, mas aproveite!
LOFI - Quando o lofi surgiu, nos Estados Unidos, era uma moradia instalada em antigos galpões industriais.
Sempre enorme e sem paredes divisórias.
Vejo anúncios de lofts a torto e a direito.
A maioria corresponde a um antigo conjugado.
Só não tem paredes, para lembrar seu similar americano.
É preciso ser compreensivo. Qualquer um prefere dizer
que está morando em um lofi a dizer em uma quitinete de luxo.
CULT - Não aguento mais ouvir falar que alguma porcaria é cult!
O cult é o brega que ganhou status.
O negócio é o seguinte: um bando de
intelectuais adora assistir a filmes de terceira,
programas de televisão populares e afins.
Mas um intelectual não pode revelar que gosta de algo
considerado brega. Então diz que é cult.
Assim, se pode divertir com bobagens, como qualquer ser normal, sem deixar de parecer inteligente.
Como conceito, próximo do cult está o trash. É o lixo
elogiado. Trash é muito usado para filmes de terror.
Um candidato a intelectual jamais confessa que não perde um episódio da série Sexta-Feira 13, por exemplo.
Ergue o nariz e diz que é trash.
Depois, agarra um saquinho de pipoca, senta na primeira fila e grita a cada vez que o Jason ergue o machado.
WORKSHOP - É uma espécie de curso intensivo.
Existem os bons. Mas o termo se presta a muita empulhação.
Pois, ao contrário dos cursos, no workshop ninguém tem a obrigação de aprender alguma coisa específica.
Basta participar.
Muitas vezes botam um sujeito famoso para dar
palestras durante dois dias seguidos.
Há alunos que chegam a roncar na sala.
Depois fazem bonito dizendo que participaram de um workshop com fulano ou beltrano.
A palavra é imponente, não é?
RELEITURA- Ninguém, no meio artístico ou gastronômico, consegue sobreviver sem usar essa palavra.
Está em moda.
Fala-se em releitura de tudo:
de músicas, de receitas, de livros.
Em culinária, releitura serve para falar de alguém que achou uma receita antiga e lhe deu um toque pessoal.
Críticos culinários e donos de restaurantes badalados adoram falar em cardápios com "releitura" disso e daquilo...
Ora, um cozinheiro não bota o seu tempero até na feijoada?
Isso é releitura? Então minha avó fazia releitura e não sabia, coitada.
O caso fica mais complicado em outras áreas.
Fazer uma releitura de uma história não é disfarçar falta de idéia?
Claro que existem casos e casos. Mas que releitura serve para disfarçar cópia e plágio, serve.
Seria mais honesto dizer "adaptado de..." ou "inspirado em..."
Como faziam antes.
Daria para escrever um livro inteiro a respeito.
Fico arrepiado quando alguém vem com uma conversa abarrotada de termos como esses.
Parece que vão me passar a perna.
Ou a culpa é minha, e não sou capaz de entender a profundidade da conversa?
Nessas horas, fico pensando:
Será que sou bobo? Ou tem gente esperta demais?
Autor: Walcyr Carrasco
Livro: Pequenos delitos e outras crônicas





























