quarta-feira, 1 de junho de 2011



Ando perdido em uma selva de palavras.

Existem termos destinados a dar a impressão de que algo não é exatamente o que é, ou para botar verniz sobre uma atividade banal.


Já estão, sim, incorporados no vocabulário.

Servem para dar uma impressão enganosa.
E também para ajudar as pessoas a parecerem inteligentes e chiques
porque parecem difíceis...

Resolvi desvendar algumas dessas armadilhas verbais:

SEMINOVO - Já não se fala em carro usado, mas em seminovo.
Vendedores adoram!
O termo sugere que o carro não é tão velho assim, mesmo que se trate de uma Brasília sem motor, ou que o câmbio saia na mão do comprador logo depois da primeira curva.

É pura técnica de vendas.

Vou guardá-lo para elogiar uma amiga que fez plástica.
Talvez ela adore ouvir que está "seminova". Mas talvez...


SALE - É a boa e velha liquidação.
As lojas dos shoppings devem achar "liquidação" muito chula.
Anunciam em inglês. Sale quer dizer que o
estoque encalhou. A grife está liquidando, sim!
Não se envergonhe de pedir .mais descontos.
Pode ser que não seja chique, mas aproveite!


LOFI - Quando o lofi surgiu, nos Estados Unidos, era uma moradia instalada em antigos galpões industriais.

Sempre enorme e sem paredes divisórias.
Vejo anúncios de lofts a torto e a direito.
A maioria corresponde a um antigo conjugado.
Só não tem paredes, para lembrar seu similar americano.
É preciso ser compreensivo. Qualquer um prefere dizer
que está morando em um lofi a dizer em uma quitinete de luxo.

CULT - Não aguento mais ouvir falar que alguma porcaria é cult!
O cult é o brega que ganhou status.
O negócio é o seguinte: um bando de
intelectuais adora assistir a filmes de terceira,
programas de televisão populares e afins.
Mas um intelectual não pode revelar que gosta de algo
considerado brega. Então diz que é cult.
Assim, se pode divertir com bobagens, como qualquer ser normal, sem deixar de parecer inteligente.



Como conceito, próximo do cult está o trash. É o lixo
elogiado. Trash é muito usado para filmes de terror.
Um candidato a intelectual jamais confessa que não perde um episódio da série Sexta-Feira 13, por exemplo.

Ergue o nariz e diz que é trash.
Depois, agarra um saquinho de pipoca, senta na primeira fila e grita a cada vez que o Jason ergue o machado.


WORKSHOP - É uma espécie de curso intensivo.
Existem os bons. Mas o termo se presta a muita empulhação.
Pois, ao contrário dos cursos, no workshop ninguém tem a obrigação de aprender alguma coisa específica.
Basta participar.
Muitas vezes botam um sujeito famoso para dar
palestras durante dois dias seguidos.
Há alunos que chegam a roncar na sala.
Depois fazem bonito dizendo que participaram de um workshop com fulano ou beltrano.

A palavra é imponente, não é?

RELEITURA- Ninguém, no meio artístico ou gastronômico, consegue sobreviver sem usar essa palavra.
Está em moda.
Fala-se em releitura de tudo:
de músicas, de receitas, de livros.
Em culinária, releitura serve para falar de alguém que achou uma receita antiga e lhe deu um toque pessoal.

Críticos culinários e donos de restaurantes badalados adoram falar em cardápios com "releitura" disso e daquilo...

Ora, um cozinheiro não bota o seu tempero até na feijoada?
Isso é releitura? Então minha avó fazia releitura e não sabia, coitada.
O caso fica mais complicado em outras áreas.
Fazer uma releitura de uma história não é disfarçar falta de idéia?
Claro que existem casos e casos. Mas que releitura serve para disfarçar cópia e plágio, serve.
Seria mais honesto dizer "adaptado de..." ou "inspirado em..."
Como faziam antes.

Daria para escrever um livro inteiro a respeito.
Fico arrepiado quando alguém vem com uma conversa abarrotada de termos como esses.
Parece que vão me passar a perna.
Ou a culpa é minha, e não sou capaz de entender a profundidade da conversa?
Nessas horas, fico pensando:
Será que sou bobo? Ou tem gente esperta demais?

Autor: Walcyr Carrasco
Livro: Pequenos delitos e outras crônicas

16 comentários:

✿ chica disse...

Essas estão plenamente incorporadas ...um lindo dia!beijos,chica

JAN disse...

Cida, seu post de hoje não é CULT nem TRASH... e nem precisa de RELEITURA.

Que "tudo de bom"! "Adoro"!... etc. :-))))))))))))))

Tenha um bom dia.

AVOGI disse...

CIDA
dá um bejão ao teu Guilherme já que nao posso dar, mas diz-lhe se quiser um beijo real e nao virtual terá de me pagar a passagem para lho dar ou então vir até aqui à minha ilha ao meu rural e assim beijamo-nos. tudo às custas dele
kis :=):=):=) e sabes , chamavam-me Gizinha quando era menina e moça e ....virgem
kis :=)

Tite disse...

Amiga Cida,

Nós por cá temos essas e mais algumas que isto quando a moda pega alastra como praga agora com mais facilidade por via das televisões e da Internet.

Beijinho Boooom

Paloma disse...

CIDA, tudo isso é uma maneira de rotular o simples, o comum, para que não pareça tão simples assim.O pessoal acha ¨chique¨usar essas palavras cheias de pompa.

Beijos

AVOGI disse...

nao te esqueças do desafio. passa lá e diverte-te
kis .=)

João Menéres disse...

CIDA

Esta postagem deu-me um enorme desgosto !
Imagina que concluí que não pertenço a esta época, pois não uso nenhum destes "chiquérrimos" termos...

Gostei muito das tuas considerações !

Quando nos ( RE)vemos ?

Até lá, fica aqui o meu beijo.

Joana disse...

Em POrtugal só se utiliza o seminovo e o workshop. As outras palavras nunca tinha ouvido.

Beijinhos

Giovanna disse...

Oi Cida, novos termos, a era da informação globalizada... no oriente muitos desses termos não são conhecidos, mas de vez em quando deparo com o SALE nos magazines... mas foi bem interessante conhecer o significado
vou anotar no meu caderninho... bjs e um lindo dia a ti.Giovanna

Bergilde Croce disse...

Cida,
Confesso também que preciso me atualizar pois alguns desses termos nem conhecia.Bom sempre vir aqui!
Ah,do teu comentario la no blog...sim,tanto o Fran como a Chiara ja falam muita coisa em Portugues,mas ela parece ter maior facilidade pra compreensao.
*Falta de acentos aqui devido ao sistema operacional do pc que estou usando.Abraço grande!!!

Laura disse...

Minha menina, a gente sabe os termos e faz de conta que não entende...burros mesmo são os que pensam saber mais que uns e outros... é cada disparate...
Mas deu para rir com a prosa bem giraça. (giraça?) ahhh.

Um beijinho da fitinha.

Mónica disse...

Olá Cida! Que giro saber que quase teve o mesmo nome que eu! hehe ;)

Obrigada pela visita no meu blog! Gostei do seu e vou seguir! Fico então à espera de ver as imagens que vai escolher para o desafio!

Beijinho *

claudiafux@bol.com.br disse...

Querida amiga,

Depois da Coca-cola estes termos (por sinal acho ridículo) começaram a fazer parte de nosso dia-a-dia, e atualmente então nem se fala ...

A propósito tem um belo termo novo:
LEDORA. Isto mesmo. Deixa explicar:

Uma grande amiga no Rio, aposentada, está querendo ajudar as pessoas, fazer algo DE GRAÇA, sem absolutamente nenhuma remuneração. Ela é uma pessoa extremamente inteligente.Formou-se em engenharia química.

Recentemente foi ao Instituto Benjamin Constant se oferecer para ler para os deficientes visuais ... Mas qual ...

Para ser LEDORA tem que ser professora ou pedagoga ...

Daí só me passa mais um termo novo para criar: buRRocracia ...

Enfim ....

Desculpa me alongar.

Bjs no core
claudiafux

ॐ Shirley ॐ disse...

Bastante espirituoso e verdadeiro esse texto. Ri muito. Beijo, Cida!

Tite disse...

Repito comentário pois não sei se ficou pedido de retorno lá no Leoa.

Cida querida,

Como te compreendo...
Também tive problemas até substituir o meu PC. Agora vou a todo o lado independentemente das páginas mais pesadas ou mais leves.
Problema mesmo é quando o blogger se lembra de nos bloquear, né?

Quanto a a vir a alcançar o meu número de netos, não tenho dúvidas que isso é capaz de ser mais fácil em terras de Vera Cruz. Por aqui a vida está difícil messsssmo!

Beijo Booom

PS - no post abaixo, também não consegui ver as duas fotos publicadas, nem hoje, nem ontem nem no dia em que foi publicado.

Jorge Pimenta disse...

cid@, amig@,
o teu olhar é clínico; nada te escapa. este post é especialmente valioso; afinal, andam os poetas a maldizer as palavras e eis que tu acenas com um conjunto delas que o merecem acima de qualquer retórica. ai, a selva lexical!
beijinho!